Cúpula do MERCOSUL: um marco político para a integração energética

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No dia 3 de julho de 2025, Buenos Aires sediou a LXVI Cúpula de Presidentes do MERCOSUL, com a participação dos Presidentes Javier Milei (Argentina), Luis Arce (Bolívia), Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Santiago Peña (Paraguai) e Yamandú Orsi (Uruguai). Em um contexto global marcado por desafios energéticos e pela necessidade de cadeias energéticas resilientes, a integração energética foi um dos principais temas discutidos.

De esquerda para a direita: Vice Ministro Energia Mauricio Bejarano, Emb Py en Arg Helena Filip, Ministro Industria PY Javier Gimenez, Ministra Obras Publicas PY Claudia Centurion, Ministro de Economia AR Toto Caputo, Ministro Economia PY Carlos Fernandez, Chanceler PY Ruben Ramirez, Secretario Coordinación de Energia y Mineria Arg Daniel Gonzalez

Na Declaração Presidencial sobre Integração e Segurança Energética, os líderes reafirmaram a importância de avançar na integração de gás natural e eletricidade no MERCOSUL, destacando o papel da energia como motor do desenvolvimento econômico, da inovação tecnológica, da industrialização e da atração de investimentos sustentáveis para o bloco.

Os presidentes reconheceram o valor da infraestrutura existente — gasodutos transfronteiriços, redes de interconexão elétrica e usinas binacionais — e enfatizaram a urgência de garantir fontes de energia confiáveis e competitivas para as indústrias e populações da região.

Também foi reiterado o compromisso com a harmonização de regulamentações, a criação de condições estáveis para investimentos privados e a promoção de acordos de longo prazo para assegurar o fornecimento energético.

Nesse contexto, o único acordo bilateral assinado durante a cúpula foi o Memorando de Entendimento (MoU) entre Paraguai e Argentina para o desenvolvimento do Gasoduto Bioceânico, conferindo ao projeto uma relevância política e estratégica singular.

Esse marco reafirma o compromisso de ambos os países com uma visão compartilhada para o futuro energético regional, posicionando o gasoduto como o principal projeto de integração energética do MERCOSUL nesta década.

O GASODUTO BIOCEÂNICO: INTEGRAÇÃO ENERGÉTICA PARA A AMÉRICA DO SUL E O MUNDO

O Gasoduto Bioceânico é uma das iniciativas mais estratégicas para a integração energética na América do Sul. Seu objetivo é conectar a produção de gás natural de Vaca Muerta, na Argentina, aos mercados brasileiros, atravessando o Paraguai por meio de uma infraestrutura moderna, eficiente e segura.

Integrado à Rota Bioceânica, esse corredor energético promoverá o uso do gás ao longo de seu trajeto, impulsionando o desenvolvimento industrial, a geração de empregos e a competitividade nos países envolvidos.

Uma visão de longo prazo: a origem do projeto

A Zeus Energy, com mais de uma década de atuação no Chaco paraguaio em atividades de exploração de gás natural, foi pioneira ao identificar um desafio e uma oportunidade: caso fosse descoberto gás no Paraguai, seria necessário conectá-lo a mercados regionais para viabilizar sua comercialização.

Em 2018, o cenário começou a se alinhar. Vaca Muerta emergia como um megacampo capaz de transformar o mapa energético da América do Sul, enquanto a Bolívia apresentava sinais de declínio em sua produção de gás, e o Brasil enfrentava um déficit estrutural no fornecimento de energia devido ao crescimento industrial e urbano.

Nesse contexto, a Zeus Energy, em parceria com a Enera Ventures, propôs o Gasoduto Bioceânico como um projeto estratégico para posicionar o Paraguai como um ator relevante no mercado de gás natural, ao mesmo tempo em que impulsionaria sua industrialização com uma fonte de energia abundante, limpa e competitiva.

Na época, o então vice-ministro de Minas e Energia, Mauricio Bejarano, reconheceu o potencial transformador da proposta e a incorporou como um pilar da política energética paraguaia. Apesar do ceticismo inicial, devido à natureza prospectiva do projeto, a ideia ganhou força com as mudanças no cenário energético regional e global, marcadas pela crise energética, a transição para fontes mais limpas e a necessidade de segurança energética.

Com o governo do presidente Santiago Peña, o projeto foi retomado com prioridade. Diante da proximidade do limite da capacidade hidrelétrica instalada no Paraguai e da ambição de posicionar o país como um hub de integração energética na América do Sul, o Gasoduto Bioceânico assumiu centralidade na agenda de desenvolvimento.

Mauricio Bejarano, agora novamente vice-ministro de Minas e Energia, consolidou-se como um dos principais articuladores do projeto, ao lado de figuras-chave como Claudia Centurión, Ministra de Obras Públicas e Comunicações, e Javier Giménez, Ministro da Indústria e Comércio. Junto à Enera Ventures e à Zeus Energy, formaram uma mesa de diálogo institucional para estruturar um processo técnico e político que priorize o gasoduto como um projeto estratégico.

Avaliação em fóruns regionais e internacionais

O Gasoduto Bioceânico foi discutido em fóruns relevantes do MERCOSUL, como o Estudo de Integração de Gás do Mercosul, financiado pela CAF e elaborado pela OLADE, que analisa as condições técnicas, econômicas e estratégicas dos corredores regionais. O projeto também está contemplado no Memorando de Entendimento entre Argentina e Brasil, que visa viabilizar o fornecimento de gás exportável para o norte do continente.

Nessas discussões, o gasoduto foi identificado como uma das rotas mais viáveis, devido à ausência de obstáculos sociais e ambientais, à topografia favorável e à disponibilidade de direitos de passagem.

Sua relevância é clara: permite a exportação competitiva de gás argentino, transforma o Paraguai em um consumidor e industrializador estratégico e oferece ao Brasil uma nova fonte de energia a preços competitivos, diversificando sua matriz energética.

Avanços em acordos internacionais

Em 2 de julho de 2025, Paraguai e Argentina assinaram um acordo para avançar na integração do gás e na cooperação técnica e regulatória necessária ao desenvolvimento do gasoduto. Anteriormente, em fevereiro de 2025, durante o VI Fórum de Governos Subnacionais do Corredor Bioceânico, foi firmado o primeiro acordo binacional entre o Governo do Mato Grosso do Sul (Brasil) e o Paraguai, criando um grupo de trabalho conjunto. Atualmente, negociações avançadas com o Ministério de Minas e Energia do Brasil e a Província de Salta (Argentina) consolidam uma visão compartilhada de longo prazo para o projeto.

Interesse do setor privado

Grandes empresas do setor energético, como TotalEnergies, CAF, YPF, Techint, Pluspetrol e Transportadora de Gas del Norte (TGN), demonstraram interesse em participar de diferentes etapas do desenvolvimento do gasoduto, reforçando sua viabilidade e atratividade para investimentos internacionais.

Condições para viabilizar o gás de Vaca Muerta para o Brasil

O principal desafio para tornar o gás argentino acessível ao Brasil de forma sustentável envolve dois aspectos: o desenvolvimento de nova infraestrutura e a competitividade do preço final. Para atender à demanda brasileira, o gás deve ser firme, com preço abaixo de US$ 10/MMBTU para o consumidor final e contratos de longo prazo. O Gasoduto Bioceânico é a única iniciativa capaz de cumprir essas condições simultaneamente, posicionando-se como a alternativa mais estratégica e realista.

A disponibilidade de gás firme com contratos estáveis é essencial para o desenvolvimento industrial no Paraguai e no Brasil. As indústrias requerem previsibilidade no fornecimento e custos de energia estáveis para planejar investimentos. Para isso, é crucial operar em territórios com estabilidade política e econômica, que ofereçam segurança jurídica e garantias de conformidade. Acordos internacionais, como os do MERCOSUL, são fundamentais para proporcionar confiança a investidores e usuários finais.

Transformando ideias em obras: o Paraguai na liderança da coordenação

A integração energética exige ações concretas, liderança e coordenação eficaz. Como diz o ditado, “obras são amores”. O Paraguai, apesar de seu tamanho, demonstra firme compromisso com a cooperação regional. Nas palavras do presidente Santiago Peña: “Vivemos entre gigantes, mas não para nos isolarmos, e sim para construir pontes, dialogar e criar soluções conjuntas”.

Com essa visão, o Paraguai assume a responsabilidade de articular esforços técnicos, diplomáticos e financeiros, reconhecendo que o Gasoduto Bioceânico é um projeto regional que beneficia todos os envolvidos. Essa liderança não busca protagonismo, mas sim estabelecer uma plataforma comum para o desenvolvimento, a segurança energética e a integração sustentável.

Um projeto para antecipar o futuro energético

Em um cenário global de transição energética, o gás natural desempenha um papel crucial como combustível de transição para fontes renováveis.

O Gasoduto Bioceânico vai além de uma infraestrutura: é um símbolo de integração regional, cooperação entre países e uma visão compartilhada de longo prazo. Conectando os oceanos Atlântico e Pacífico e integrando Argentina, Paraguai, Brasil e Chile, o projeto responde à necessidade de antecipar crises energéticas com planejamento, estratégia e compromisso regional.

Como já foi dito, não podemos agir como saquinhos de chá que só reagem quando a água já está quente. A integração energética deve ser proativa. O Gasoduto Bioceânico é, hoje, o principal projeto capaz de transformar a geografia energética da América do Sul.

 

 

Por Giuliano Franco

 

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